• INTERMITÊNCIA

    Hoje eu entendi uma coisa sem ninguém me explicar.
    Não foi numa conversa calma.
    Não foi num pedido de desculpas.
    Não foi num abraço.

    Foi no silêncio depois da última ameaça.
    Foi na lembrança da frase mais bonita que ele já me disse:
    “Você nunca vai sair da minha vida.”
    Engraçado como algumas promessas soam eternas e, ainda assim, nunca significam permanência.

    Eu nunca saí da órbita dele.
    Mas também nunca fui o centro.
    Fui intervalo.
    Fui ligação às duas da manhã.
    Fui colo na bebedeira.
    Fui escuta quando o mundo o expulsava de algum lugar.
    Fui paciência quando ele gritava.
    Fui calmaria quando ele era tempestade.

    Mas quando a maré baixava,
    quando a responsabilidade batia na porta,
    quando amar exigia cuidado
    eu virava excesso.
    Virava erro.
    Virava “destruição”.

    Ele dizia que eu nunca sairia da vida dele.
    Mas me bloqueava.
    Me esquecia.
    Me ameaçava com Roma antiga, com apagamentos históricos,
    como se eu fosse um nome escrito a lápis na margem da história dele.

    E o mais estranho é que, quando ele disse que ia me esquecer,
    eu senti alívio.
    Alívio é uma palavra dura quando nasce do amor.
    Porque eu amo.
    Eu amo de verdade.
    Eu amo com a parte mais leal de mim.

    Mas amor não deveria vir com medo.
    Não deveria vir com chantagem.
    Não deveria vir com a sensação constante de que preciso provar que mereço ficar.

    Hoje eu percebi que talvez eu nunca tenha sido o suficiente.
    Talvez eu tenha sido disponível demais.
    Disponível para entender.
    Disponível para perdoar.
    Disponível para voltar.
    Disponível para acreditar que dessa vez seria diferente.

    Ele não queria que eu saísse da vida dele.
    Ele só não queria que eu tivesse a coragem de fechar a porta.
    Existe uma diferença entre não querer perder alguém
    e não querer ficar sozinho.
    E eu, achando que era eterna,
    talvez tenha sido apenas conveniente.

    Hoje eu chorei.
    Mas no meio do choro tinha uma verdade pequena, quase sussurrada:
    Eu não quero mais ser intermitência na vida de ninguém.
    Eu não quero mais ser chamada quando a casa está pegando fogo
    e descartada quando a fumaça baixa.

    Eu queria o abraço dele.
    Ainda quero, se eu for honesta.
    Mas começo a querer também o abraço da minha própria paz.
    Porque amar alguém não pode significar
    aceitar ser apagada repetidas vezes.

    Se eu nunca saí da vida dele,
    talvez seja porque eu mesma não me permiti sair.
    E hoje, pela primeira vez,
    eu sinto que talvez eu consiga.

  • A Sacada Acesa (2)

    Hoje eu atravessei a cidade como quem atravessa um deserto por miragem.
    Não fui por coragem.
    Fui por cansaço.
    Por essa exaustão que nasce quando o coração já não aguenta carregar perguntas sem resposta.
    Toquei o interfone.
    E ele atendeu.
    A voz dele saiu pelo fio como um fantasma familiar
    e, por um segundo, o mundo pareceu reconhecer meu nome outra vez.
    Ele desceu.
    Me deixou subir.
    E ali estava ele
    tão perto que doía
    tão longe que parecia impossível tocar.
    Estava lindo.
    O mesmo menino que um dia foi casa.
    O mesmo rosto que minha memória insiste em chamar de abrigo.
    Mas agora havia um vidro invisível entre nós
    um muro feito de decisão.
    Eu quis falar.
    Cinco minutos.
    Um minuto.
    Um sopro de verdade.
    Mas não me deixaram existir.
    As palavras ficaram presas na garganta
    como pássaros batendo asas contra uma janela fechada.
    Ele disse que não queria mais contato.
    Disse como quem fecha uma porta sem olhar para trás.
    E me expulsou
    de novo
    como se eu fosse um erro reincidente
    como se sentir fosse um crime.
    Enquanto ele falava, eu vi.
    O corpo dele tremia.
    Um tremor curto, contido, involuntário.
    Não era amor.
    Era tensão.
    Era medo.
    Era tudo o que não se sabe nomear quando o coração não sabe sustentar o que sente.
    E mesmo assim doeu.
    Porque até o que não é amor
    quando vem de quem foi tudo
    machuca como despedida.
    Desci sozinha.
    Voltei para a rua com o mundo mais pesado do que quando cheguei.
    Levantei os olhos
    e lá estava
    a sacada acesa.
    Ele dentro.
    Eu fora.
    Entre nós, um silêncio definitivo
    desses que não gritam, mas esmagam.
    Agora estou em casa.
    No sofá.
    Diante do tabuleiro de xadrez.
    Peças imóveis.
    Rei encurralado.
    Nenhum movimento possível que não leve à perda.
    Hoje eu não perdi você.
    Hoje eu perdi a chance de ser ouvida.
    Perdi o direito de explicar.
    Perdi a última esperança de que a dor tivesse voz.
    E o mais cruel não foi o “não”.
    Foi não poder dizer nada antes dele.
    A sacada segue acesa.
    E eu sigo aqui
    tentando entender como alguém pode tremer diante de quem machuca
    e ainda assim escolher ir embora.
    Hoje eu aprendi
    que algumas portas até se abrem
    mas não para acolher
    apenas para confirmar
    que já não somos mais bem-vindas.

  • CASA VAZIA

    Há dias em que você volta sem tocar a campainha.
    Não aparece na porta.
    Não chama meu nome.
    Você simplesmente atravessa.

    De repente apareces como sombra do passado,
    um vulto que caminha pelos corredores da minha memória,
    um fantasma que insiste em atormentar minha mente
    como se meu coração ainda fosse o teu endereço.

    Eu tentei te enterrar muitas vezes.
    Enterrei em viradas de ano,
    em promessas feitas chorando no escuro,
    em decisões que eu tomava de madrugada
    jurando que seria a última vez que doía.

    Mas você não aceita terra.
    Você não aceita fim.
    Você ficou.
    Ficou do jeito que ficam as ausências que marcam território,
    como um quarto que ninguém mais usa
    mas que ninguém tem coragem de esvaziar.

    Ainda tem o teu cheiro.
    Ainda tem a tua sombra no chão.
    Ainda tem a impressão de que, se eu chamar,
    alguém vai responder.

    Tinha tudo pra ser, ah Deus, como tinha, mas não foi.
    Tinha o depois,
    o quase,
    o “quando der”,
    tinha promessas que nunca aprenderam a nascer.

    Mas não foi.
    Você escolheu o silêncio
    e me deixou aprendendo a falar sozinha.
    Me deixou conversando com paredes,
    guardando objetos que perderam o sentido,
    dormindo ao lado de um espaço vazio que ainda ocupa lugar.

    Hoje eu não sinto apenas saudade.
    Eu sinto abandono.
    Carrego você como quem carrega um inverno dentro do peito.
    Tudo em mim esfriou um pouco depois que você foi.
    Até meus sonhos aprenderam a andar mais devagar.

    Às vezes eu paro no meio do dia,
    olho para um lugar qualquer,
    e percebo que ainda moro
    numa casa que você deixou sem despedida.

    Oxalá eu te encontre em outra vida, minha vida, onde possamos acontecer.
    Porque nesta,
    eu sigo vivendo no silêncio que você deixou,
    aprendendo a respirar num espaço que era nosso
    e que agora só ecoa o teu nome
    em paredes que não respondem mais.

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